Conheci o trabalho do André através de uma newsletter. Raramente eu abro esses emails, mas esse em especial chamou minha atenção.
Ainda bem que decidi lê-lo, afinal não é sempre que vemos uma movimentação “literária” por aqui. Ele foi responsável pelo encontro que aconteceu no sábado passado no Ao Café, onde foram discutidos tópicos sobre cinema e literatura.


Fiquei triste por ter outro compromisso, mas tenho certeza que outros encontros acontecerão. Decidi fazer essa entrevista com ele, pois acredito que esse tipo de iniciativa tem que ser divulgada e apoiada. Vida longa aos Santistas das “artes”!
Quer saber mais sobre o Cinezen?  A gente conta aqui!


Como nasceu a ideia para esse projeto?
Bom, primeiro obrigado pela oportunidade de divulgar o trabalho do CINEZEN. A ideia de organizar debates que possam contribuir com o meio cultural e a sociedade já nasceu com o CINEZEN. O lançamento do site, em 29 de março de 2009, teve um debate sobre o papel da crítica cinematográfica na região. Quando completou um ano, fizemos na Associação dos Médicos de Santos um encontro com o cineasta Tiaraju Aronovich, diretor do filme “Sem Fio”, que havia acabado de receber um prêmio no Festival de Vancouver, e é diretor da Escola de Cinema de São Paulo. Foi o 1º CINEZEN CONVIDA, em prol do Projeto Menina Mãe. Já em abril desse ano, no 2º CINEZEN CONVIDA, em prol da Casa Vó Benedita, reunimos o Diretor de Produção do Curta Santos, Junior Brassalotti, o cineasta Carlos Oliveira, o coordenador do CINEME-SE e do Cineclube Lanterna Mágica, Eduardo Ricci, e o cinéfilo e artista plástico Waldemar Lopes, que todo ano faz uma palestra maravilhosa sobre o Oscar, geralmente na Associação dos Médicos, na sexta que antecede a premiação (e sempre beneficente também).
O tema do 2º CINEZEN CONVIDA foi produção e eventos de cinema em Santos. Inicialmente um site de cinema, o CINEZEN, até por questão de demanda e da minha aproximação com outros segmentos artísticos, tornou-se um site que também fala sobre literatura, artes plásticas, teatro, história em quadrinhos, música, etc. Em 29 de julho, organizamos uma noite cultural, na Ao Café, com exposição do Argemiro Antunes, o Miro, relançamentos do livro que fiz com minha mãe, “Poesia a quatro mãos”, e da revista Mirante. Como há uma grande movimentação literária na cidade, mas nem todos os escritores têm o devido espaço, decidimos organizar o CINEZEN LITERÁRIO. A ideia de colaborar com instituições é por acreditar que nós (mídia, artistas, produtores culturais) podemos colaborar socialmente. A arte é muito mais relevante quando contribui de alguma forma para a melhora da sociedade. Poder ajudar através da cultura é uma delícia. E tivemos a honra de unir sete grandes escritores (Cláudia Brino, Madô Martins, Márcio Callegaro, Regina Alonso, Sidney Sanctus, Valdir Alvarenga e Vieira Vivo) que contribuem imensamente não apenas para o meio literário, mas para a aproximação do público com a literatura, com a cultura. O encontro foi um sucesso. Mais de 60 pessoas lotaram a Ao Café, mais de 20 livros foram sorteados para o público e arrecadamos um bom número de alimentos e latas de Mucilon.

Você sempre gostou de ler? De onde vem essa paixão?
Desde pequeno. Tenho uma mãe poetisa, Regina, que publicou sozinha dois livros, o primeiro
premiado no Robalo de Ouro. Também lembro de ver meu pai pra lá e pra cá com um livrinho
de bolso, geralmente histórias de faroeste. Além do contato com livros na escola, claro, logo
cedo me apaixonei por histórias em quadrinhos, sentimento que mantenho até hoje. Creio que
os gibis são uma maneira muito interessante de apresentar e estabelecer a literatura na vida
de uma criança. Depois, com uns 9, 10 anos, comecei a escrever meus primeiros poemas,
obviamente para tentar conquistar as meninas de quem eu gostava (risos). Como trabalho
escolar, fiz um livro artesanal que tenho até hoje. Isso quando tinha uns 12 anos. Lembro de
visitar, na quinta série, a redação do Estadão. Depois, fizemos um jornal na escola. Passei
a escrever sempre. Outra coisa que a vida inteira gostei foi ficar lendo e relendo letras de
músicas. Nos vestibulares tirei 10 em quase todas as redações. E não parou mais. Ler e
escrever, livros, gibis, assim como ver filmes, enfim, consumir cultura, é algo que amo, me
faz bem. E poder ajudar, mesmo que um pouquinho, a divulgar artistas tão talentosos, é um
orgulho. E maior orgulho é perceber que esses artistas adotaram o CINEZEN e que o público
procura o site como meio de informação sobre essas pessoas e o que está acontecendo de
bacana culturalmente.

Qual um livro que marcou sua vida?
Não há um especificamente. Um que me emocionou bastante foi “Olhai os Lírios do Campo”,
do Érico Veríssimo. Tem também os da minha mãe, algumas poesias desses livros estão
no blog dela, http://www.reginapoeta.blogspot.com, várias histórias em quadrinhos, biografias de
músicos, diretores, “Os Miseráveis”, do Victor Hugo. Um mais recente foi o “Reparação”, do Ian MacEwan, que foi adaptado para o cinema no maravilhoso “Desejo e Reparação”. Aliás, adoro ler livros que depois foram transformados em filmes. Tem todos os clássicos e aqueles que todo mundo cita. Mas é clichê (risos).

Além do blog, você escreve para outros veículos?
O CINEZEN hoje é um site com 56 mil acessos únicos por mês e possui
colaboradores da região e outros estados. Lá estão meus textos principais, as centenas de
críticas de filmes que fiz e faço. Comecei escrevendo sobre música, e esses textos podem ser achados no Google. Além do site, assino a coluna de cinema na revista Mirante, vou
começar a assinar uma coluna no projeto Cine Livro, do Clube de Poetas do Litoral. O projeto
baseia-se em poesias feitas a partir de filmes. Escreverei críticas desses filmes. Também
sou colunista semanal do Jornal da Orla, (na edição impressa e em vídeo, no site do jornal),
como colaborador. Não sou contratado. E faço, todas as quartas, uma coluna no portal do
Curta Santos. Esse ano escrevi críticas para a revista Época São Paulo e devo ser repórter
novamente da Veja Litoral Paulista, roteiro gastronômico da região feito pela Veja, o qual
colaboro desde a primeira edição, de 2007. E tenho um blog pessoal.

Como anda a cena literária aqui na Baixada Santista?
Há muita gente boa. Santos sempre teve. Está rolando uma movimentação bacana. Santos
precisa se orgulhar e o santista valorizar o fato de escritores como Valdir Alvarenga, Sidney
Sanctus e Vieira Vivo, que integraram o mítico Grupo Picaré, no fim dos anos 70 e começo dos 80, ainda estarem na ativa, é de se admirar. Firmes e fortes. Os dois primeiros editam a
Mirante, revista literária independente mais antiga do país, e é de Santos. O Vieira dirige, com
a Cláudia Brino, também talentosíssima, a editora Costelas Felinas. Temos ainda a Regina
Alonso, com trabalhos maravilhosos em haicai, na ONG Tam Tam, com o grupo Poetas Vivos
e o projeto Outras Palavras, entre outros, a Madô Martins, escritora super atuante que fez em
2011 um projeto bem legal de trocas de livros e possui uma trajetória de obras marcantes. E
nomes como Marcelo Ariel, Ademir Demarchi, que não é de Santos, mas colabora demais com a região. Carlos Gama, Maria José Goldschmidt, Roberto Massoni, que lança em 1º de
setembro um lindo livro em homenagem ao dramaturgo Greghi Filho. O próprio Márcio
Callegaro, que é paulistano, porém vive aqui desde 1997 e faz obras ótimas e incentiva demais a produção local. Ou seja, temos produção. Gente se mobilizando. Creio que o espaço na imprensa regional melhorou sensivelmente. O Gustavo Klein, tem procurado abrir espaço para os artistas da região. Ainda que seja complicadíssimo conseguir publicar todo mundo. Os escritores anseiam mais espaço no jornal. E, principalmente, livrarias de Santos precisam abrir espaço para esses artistas. Tem casos que um escritor daqui conseguiu lançar seu trabalho numa livraria em São Paulo, e a loja em Santos, da mesma rede, dificultou o lançamento aqui. Também livrarias santistas que poderiam abrir mais espaço. Sei que é o mercado e que precisam vender. Mas já está provado que eventos bem organizados, divulgados, dão retorno. De público, dinheiro e, principalmente,
credibilidade. Por que não fazem encontros entre os escritores daqui? O lugar já arrecadará
com a venda de cafés, bebidas, alimentos, e poderia deixar um espaço no estande para livros
locais. Sem precisar separá-lo como “Literatura Santista”. Pois ainda há preconceito por certa
parte do público em relação a artistas daqui. É complexo de vira-lata. O mesmo complexo que
faz alguns brasileiros acharam o cinema nacional menor. A saída encontrada tem sido
promover eventos em cafés e instituições que acreditam na cultura. Se de forma independente,
e com certa adesão da mídia local, esses eventos têm atraído o público, imagina se mais
empresários apoiá-los e mais espaço na imprensa for conseguido. Escritores como o Valdir, o
Vieira e o Sidney comentam há anos e anos a viabilidade, no caderno cultural, de um espaço
só para a cultura da região. É de se pensar.

O que você acha da “nova” literatura brasileira feita por jovens e para jovens? (por
exemplo a escritora gaúcha Clarah Averbuck).
O mundo ideal acontecerá no dia que conseguirmos aliar o reconhecimento aos artistas
experientes, sedimentar os contemporâneos e apoiar o surgimento de novos artistas. É mais
do que válido o incentivo e o surgimento de gente nova. A Clarah quando apareceu sacudiu o
público. Precisamos acabar com a mania de achar de que só uma geração é válida, de que só
um estilo vale à pena. Não. Quanto mais variedade, melhor. E o público define o que é
interessante ou não. Aliás, não devemos dar trela pra quem falar em elite cultural, ou “nivelar a
cultura por cima”. Isso não existe. A arte pode ser relevante sendo erudita ou popular.

Você acredita que a relação entre o leitor e o livro vai mudar com essas novas
tecnologias, como o Ipad? Como a internet mudou sua relação com a leitura?
A sociedade deixar de ler o livro como o conhecemos creio que dificilmente acontecerá. Ou, seacontecer, será num futuro distante quando poderemos projetar mentalmente os livros (risos).
Qual a graça de parar numa praça, num parque, ou no caso aqui de Santos, no Jardim da
Praia, para ler em um Ipad? Se é pra ler numa tela, prefiro em casa, no computador. O que a
internet fez comigo foi me fazer ler ainda mais. Além dos livros, revistas, gibis, jornais, agora
paro pra ler gente bacana disponível online também. Críticos de cinema estrangeiros que antes
não tinha a chance de ler, críticos brasileiros de outras cidades e estados, sites legais de
cultura e, claro, notícias do mundo todo. A coisa ficou mais dinâmica, democrática e mais
louca. É preciso ter um limite também pra não abdicar do contato externo.

Como você vê a interação entre o Santista e as artes (cinema, teatro, etc)?
Santos é uma cidade que sempre teve tradição nas artes: temos artistas reconhecidos
nacionalmente no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na literatura. Quanto ao público, não
me sinto à vontade pra fazer um julgamento generalizado. Posso falar dos meus amigos, as
pessoas com quem convivo, que gostam de participar de eventos culturais e consumir arte.
Vez ou outra, mais entretenimento que arte. Mas faz parte.


O que você gostaria de ver por aqui?
A valorização dos nossos artistas, aqueles que estão há anos e décadas fomentando a cultura
da região, incentivando novos talentos, e não possuem o devido reconhecimento. Maior apoio
do poder público, das empresas (principalmente aquelas ligadas à cultura) e das pessoas à
arte santista. Claro que temos vários outros problemas, como saúde, educação, problemas
de âmbito nacional, mas a arte pode ajudar nesses quesitos. O reconhecimento profissional
aos críticos de arte. Tem gente que considera a crítica um hobby. Não é. É profissão. Todo
mundo quer ter um crítico de cinema, musical. Por que dá retorno de público falar desses
assuntos. Mas muita gente não quer pagar o mínimo possível por esse trabalho. É preciso ver
o filme, ir às cabines de imprensa, e eventualmente pagar pra ver o filme, escrever a crítica de
forma decente, checar informações. Enfim, não é só ver o filme e opinar sobre ele. Precisamos
estudar, nos atualizar frequentemente. Para ter e manter a credibilidade. Mas é tudo sonho
e sei que demorará bastante. Também gostaria de ver um festival cinematográfico de longas
em Santos, pois de curtas já temos o Curta Santos, que é maravilhoso, e o CINEME-SE. E
que o CINEZEN possa continuar cada vez mais forte no meio, incentivando, informando, e
aproximando o leitor da cultura. E um dia consiga também apoio privado para manter-se no ar,
bancar seus custos, enfim. Precisamos pagar as contas. Obrigado novamente e parabéns pelo
blog.